O mito de Eros e Psiquê – parte 1

Detalhe da escultura “Eros e Psique”,de Antonio Canova, Museu do Louvre, Paris
Detalhe da escultura “Eros e Psique”,de Antonio Canova, Museu do Louvre, Paris

Este é um dos mitos que eu mais gosto na Mitologia. Uma história lindíssima de amor, onde a mocinha enfrenta várias dificuldades para finalmente merecer ficar ao lado de seu belíssimo amado. Mas como é uma longa história, vou dividir este mito em, pelo menos, duas partes.

A mocinha da história se chama Psiquê, uma princesa tão linda e graciosa, que foi capaz de despertar a inveja de Afrodite, a deusa do amor e da beleza. Psiquê era tão linda, que os pretendentes faziam fila na porta do palácio de seu pai, na tentativa de serem escolhidos por ela. No entanto, Psiquê não se interessava por ninguém dentre tantos homens, o que fez Afrodite sentir inveja e raiva. Inveja por ver tantos homens aos pés da princesa, quando ela mesma deveria ser honrada daquela maneira, e raiva por achar que Psiquê estava esnobando o amor, que era o que Afrodite regia.

Assim, Afrodite mandou seu filho Eros em uma missão.

Eros, conhecido pelos romanos como Cupido, era segundo as lendas, uma criança rechonchuda e alada que fazia tudo o que a mãe desejava. Um dia, Afrodite insatisfeita pelo filho não crescer nunca, conversou com Métis – a deusa da prudência, que a aconselhou ter outro filho. Este outro filho de Afrodite se chamava Anteros – era possivelmente filho da deusa com seu amante Ares – e  representava o oposto de Eros. Enquanto Eros era a representação do amor, Anteros (anti-eros) é a representação da antipatia, da aversão. Em outras versões do mito, Eros seria o erotismo, e Anteros o amor puro e recíproco. Assim, com a chegada de um irmão, Eros teve uma companhia e os dois cresceram juntos.

Mas voltando ao mito: A missão que Afrodite tinha dado ao filho era fazer com que a jovem Psiquê se apaixonasse pelo homem mais vil e mais asqueroso que aparecesse para cortejar a moça. Então, quanto a princesa dormia, Eros (agora já adulto) entrou em seu quarto para lançar nela uma de suas flechas do amor, mas ficou tão estasiado com a beleza dela que tropeçou e acabou se ferindo na própria flecha. Se apaixonou perdidamente por ela, e não levou a fim a missão que a mãe havia determinado.

O rei tinha outras duas filhas, que não eram tão belas quanto Psiquê, mas já haviam se casado. Preocupado com o futuro da filha, o rei decidiu consultar o Oráculo de Delfos, também conhecido como Oráculo de Apolo, onde a pitonisa fazia previsões certeiras.

O Oráculo era sempre enigmático e temido, então tudo o que fosse por ele determinado, os gregos obedeciam sem questionar. Aconteceu que o Oráculo determinou que Psiquê deveria ser vestida com trajes de casamento e levada até o alto de um rochedo, onde um monstro viria buscá-la.

Com muito pesar o rei assim o fez, e com um triste cortejo de casamento, levou a jovem e bela princesa ao seu destino. Todos despediram-se dela com lágrimas nos olhos, inconformados com o destino da bela moça. Aos poucos todos foram indo embora e Psiquê foi ficando sozinha. Depois de muito chorar, se conformando com seu destino, caiu no sono. Só então o “monstro” apareceu.  O “monstro” era Eros. Apaixonado, determinara ao Oráculo de Delfos aquela previsão, para que pudesse levar a princesa para viver com ele, sem que sua mãe soubesse. Se Afrodite descobrisse, quem iria sofrer as consequências seria a mortal.

Anton van Dick – Amor e Psiquê
Anton van Dick – Amor e Psiquê 1638
Óleo sobre tela Kensington Palace Royal Collection, London

Com ajuda de Zéfiro, deus da brisa suave, Eros levou a amada então adormecida até um lindo vale, e delicadamente a colocou deitada sobre flores. Quando acordou, Psiquê se viu sozinha neste lindo lugar, e ao procurar descobrir onde estava e se havia alguém ali, encontrou um magnífico palácio.

Eros e Psiquê e Psique Entrando no Jardim de Cupido. Ambos de William Bouguereau
Eros e Psiquê e Psique Entrando no Jardim de Cupido. Ambos de William Bouguereau

Neste palácio não viu ninguém. Mas ali estavam ajudantes invisíveis que a serviam e realizavam todas as suas vontades. Deles, só ouvia as vozes. Acreditou estar no paraíso, realmente. Quando a noite chegou e o palácio escureceu, foi conduzida até seu quarto. Ali, temeu que finalmente encontraria o mostro que a devoraria, e estremeceu quando alguém que não pode ver entrou no quarto.

Mas para sua surpresa, a voz daquele homem era suave e palavras eram doces. A tratou com carinho e amor, e aos poucos a princesa foi perdendo o medo e se sentindo segura nos braços do homem que não conseguia ver o rosto deviso à escuridão. Seu marido havia sido maravilhoso com ela, e ela mal podia acreditar. Adormeceu feliz, mas na manhã seguinte, estava sozinha. Isto se repetiu por várias noites, e apesar de desejar conhecer o rosto de seu marido, se sentia feliz.

Mas o tempo foi passando e ela começou a se sentir solitária. Se sentia presa e implorava ao marido que a deixasse ver as irmãs, pelo menos. Ele negou até que não pôde mais suportar a infelicidade da esposa, e decidiu deixar que as irmãs dela a visitassem, com a condição de que, não importava o que acontecesse, ela nunca tentaria descobrir sua identidade verdadeira.

Ao chegarem no palácio, elas a invejaram imediatamente. Passaram o dia com Psiquê, conversando, bebendo e comendo o que havia de melhor, alegremente. Mas a inveja falou mais alto, e, quando Psiquê deixou escapar que ainda não tinha visto o rosto do esposo, as duas invejosas começaram a incutir a dúvida na cabeça da irmã. “E se ele for um ser monstruoso? Mais cedo ou mais tarde pode te devorar!” – elas diziam. Acabaram aconselhando que tentasse ver o rosto do marido quando estivesse dormindo.

Assustada com o que as irmãs disseram, uma noite esperou o marido adormecer, e se aproximou dele com um lampião em uma das mãos e na outra uma faca – para o caso das irmãs terem razão. Quando viu o rosto do marido pela primeira vez ficou tão encantada que paralisou. Era o ser mais lindo que havia visto, tão lindo que não poderia ser simplesmente um homem. Se aproximou ainda mais segurando o lampião, e pode ver melhor seus lindos traços, cabelos sedosos e percebei que possuía lindas asas. Entendeu que se tratava de Eros e não podia estar mais feliz. Era amada pelo próprio deus do amor!

Psyché et l’Amour Endormi, Peter Paul Rubens, 1636
Psyché et l’Amour Endormi, Peter Paul Rubens, 1636

Em sua alegria, sem querer deixou uma gota de óleo quente cair na asa de seu amor, causando uma forte dor e acordando-o. Ao perceber a traição, Eros sentiu raiva e foi embora voando, dizendo as seguintes palavras:

“- Tola! É assim que retribui o meu amor? Desobedeci as ordens de minha mãe te tornando minha esposa,  e ainda assim achava que eu fosse um monstro e estava disposta a me matar? Vai. Volta para junto de tuas irmãs, cujos conselhos parece preferir aos meus. Não lhe imponho outro castigo, além de deixar-te para sempre. O amor não pode conviver com a suspeita!”

Isto deixou a princesa arrasada. Quando viu já não estava mais no lindo palácio e de volta àquela montanha onde havia sido deixada por seus familiares. Tomada de dor começou a vagar sem saber o que fazer, e é aqui que começa o seu martírio para reconquistar seu amado e voltar a viver ao seu lado.

Semana que vem eu conto o resto. 😉

Beijos e até lá.

 

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