O mito de Eros e Psiquê – parte 2

Como prometido, hoje conto pra vocês a segunda parte do mito de Eros e Psiquê. Na primeira parte, Psiquê trai a confiança de Eros e por isso é expulsa do palácio em que vivia com ele. Ela se vê de volta à montanha na qual foi deixada por sua família para se casar com Eros. Seu sentimento é de desespero e dor profunda.

Sem saber o que fazer para recuperar o amor perdido, a princesa passa a vagar pelo mundo. Desesperada tenta se matar e não consegue, vaga de cidade e cidade, maltrapilha e quase enlouquecida pelo desespero. Mas estava decidida a reconquistar a confiança de seu amado, e tinha dentro de si a força de quem ama. E por isso decide procurar um templo de Afrodite, a deusa do amor, e também sua sogra.

 Psyche at the Throne of Aphrodite de Edward Hale, 1883
Psyche at the Throne of Aphrodite de Edward Hale, 1883

E Afrodite não era uma sogra boazinha. Pelo contrário. A essa altura, já sabia que o filho a havia desobedecido casando-se com Psiquê, e tudo mais que aconteceu a partir daí. Ela estava furiosa com a esposa de Eros, e pronta para impedir que eles ficassem juntos novamente. Quando Psiquê foi procurá-la, Afrodite disse-lhe que somente a deixaria ver Eros novamente depois de passar por algumas tarefas. A ideia da deusa era que as tarefas fossem impossíveis, assim a jovem jamais veria seu filho de novo. Eros, por sua vez, se encontrava enfermo, ferido, sem saber o que acontecia.

No templo de Afrodite, a deusa deixou Psiquê em uma sala, onde havia uma montanha enorme, com todos tipos de grãos. Eles se encontravam misturados e a sala estava muito bagunçada. Psiquê teria que separar todos os grãos por tipos e organizá-los antes de anoitecer. Entendendo que sua tarefa era impossível, começou a chorar de desespero, quando viu se aproximarem várias formigas. As formiguinhas começaram a trabalhar separando os vários grãos. Com essa ajuda, Psiquê conseguiu cumprir sua primeira tarefa, para a surpresa de Afrodite.

A deusa não ficou muito contente, como podem imaginar, e tratou de passar outra tarefa para a princesa. A tarefa seguinte, era praticamente uma tarefa à altura de Hércules. Afrodite determinou que a jovem fosse até as margens de um rio onde carneiros de lã dourada pastavam e trouxesse um pouco da lã de cada um deles. Esses carneiros eram ferozes e não deixavam que ninguém chegasse perto deles para tocar em sua lã de ouro.  Mais uma vez Psiquê teve ajuda da natureza. Quando estava pronta para cruzar o rio, ouviu um junco dizer que não atravessasse até que os carneiros se pusessem a descansar sob o sol quente, quando ela poderia aproveitar e cortar sua lã.  Assim, Psique esperou até o sol ficar bem alto no horizonte, e, observando que os carneiros adormeciam, atravessou o rio e levou a Afrodite uma grande quantidade de lã dourada.

Certa de que a garota morreria ao tentar realizar a tarefa, Afrodite ficou ainda mais furiosa ao vê-la voltar com a lã dourada. Ela decide então que Psiquê deveria trazer para ela em uma jarra de cristal, a água da nascente do rio Estige. A nascente do rio ficava no cume de uma montanha muito íngreme e acesso praticamente impossível. O rio, era o mesmo que banhava o mundo dos mortos. Nascia no alto de uma montanha e em sua descida, desaparecia sob a terra, entrando no reino de Hades, para depois reaparecer novamente na superfície e indo desembocar perto de sua nascente. Por ser tão sombrio, o rio atraía todo tipo de criatura sinistra e sua nascente era guardada por perigosos monstros.

Psiquê se via sem escolha, e mesmo com o cansaço, a fome, o desespero e a tristeza que sentia, no fundo tinha esperança e foi enfrentar sua tarefa. Ela não sabia muito bem como começar, mas tratou de ir até a montanha e a escalar levando consigo a jarra de cristal. Escalava com as mãos e pés nus, que se feriam no tortuoso trajeto. A essa altura, Eros já havia se recuperado e há muito perdoado a mulher amada. Ele descobriu todo o sofrimento pelo qual Afrodite a estava fazendo passar e foi pedir ajuda ao senhor dos deuses, Zeus. Quando vêem, lá estava Psiquê escalando a montanha, com pés e mãos sangrando. Zeus, comovido,  envia sua águia de estimação para ajuda-la. A magnífica águia pega a jarra de cristal, voa até o rio, enche a jarra e a traz de volta para Psiquê. E assim, a princesa consegue realizar a terceira tarefa.

Inconformada, Afrodite decide que é hora de dar uma tarefa realmente impossível de ser realizada por uma simples mortal. Disse à princesa que por ter que cuidar de Eros que estava muito adoentado, tinha perdido um pouco de sua beleza, e ordena a Psiquê vá até o reino dos mortos e consiga com Perséfone um pouco do seu elixir de beleza. Sem ter ideia de como chegar ao mundo dos mortos, acreditava que a única maneira de ir até lá seria morrendo. Sobre então no alto de uma torre para se jogar, quando a própria torre a ajuda. A torre murmura instruções de como entrar em uma determinada caverna para alcançar o reino de Hades. Disse-lhe, que ao chegar lá, encontraria Caronte, o barqueiro do mundo inferior, que transportava a alma dos mostos na travessia do rio Estige até os reinos dos mortos. Ela teria que dar uma moeda a Caronte como pagamento pela travessia. Avisou também sobre o cão de três cabeças que guarda os portões do Hades, Cérbero, e, que, para passar por ele deveria alimentá-lo com apenas um pão, para que as cabeças briguem entre si, e com a distração ela possa passar com tranquilidade.

Assim Psiquê faz, e depois de uma longa jornada chega ao submundo. Comovida com o sofrimento da jovem, Perséfone entrega de bom grado um pouco do elixir de beleza que Afrodite solicitou, e adverte a Psiquê que não abra a caixinha em momento algum.

Psyche in the Underworld de Paul Alfred de Curzon e Psyche Opening the Golden Box de John William Waterhouse, 1903.
Psyche in the Underworld de Paul Alfred de Curzon e Psyche Opening the Golden Box de John William Waterhouse, 1903.

Psiquê teria completado com êxito a sua tarefa se não fossem a curiosidade e a vaidade. Convencida de que não estava tão bela quanto antes por causa das árduas tarefas, no caminho de volta, Psiquê ficou tentada em abrir a caixinha e usar um pouco daquele elixir. Afinal, seria tão pouquinho que Afrodite nem ia notar que ela tinha usado… E ela abriu a caixa. Como tudo que é referente aos deusas, aquilo não fora feito para os olhos humanos. Foi só dar uma olhada dentro da caixinha, que Psiquê desmaiou e caiu em sono profundo.

Ali teria sido seu fim, se Eros, já completamente curado, não tivesse voado ao seu encontro. Encontrou a amada já desacordada, fechou a caixinha colocando de volta lá dentro todo o elixir, e com um beijo fez a amada acordar do sono dos mortos que a havia acometido. Ela mal pôde acreditar nos seus olhos, ao abrí-los e ver que estava nos braços de seu amado. Eros a olhava entristecido, mas com profundo amor, e a aconselhou.

Eros e Psiquê de Antonio Canova

“- Mais uma vez a curiosidade te traiu, minha amada. A curiosidade e a vaidade. Mesmo cansada, sacrificada, eu te acharia bela, e não precisaria de artifícios de beleza para ter o meu amor. Agora pode cumprir esta última tarefa, mas jamais se esqueça das coisas importantes que aprendeu.”

L'enlèvement de Psyché de William Bouguereau
L’enlèvement de Psyché de William Bouguereau

Dito isto, Eros levou Psiquê até Afrodite. Psiquê humildemente entregou a caixinha a Afrodite, que ainda estava bastante enraivecida com tudo aquilo. Mas Eros havia já pedido ajuda a Zeus para que ajudasse a apaziguar o coração da deusa. Afrodite acabou aceitando a nora, e numa nova e lindíssima cerimônia, Eros e Psiquê casaram-se novamente, agora com o consentimento de todos os deuses do Olimpo. Zeus pediu a seu filho Hermes que desse Ambrosia à Psiquê, e a cerimônia não foi só um casamento, como também a aceitação de Psiquê como deusa. Agora, graças à Ambrosia, Psiquê também era imortal, uma linda deusa com asas de borboleta. Com o tempo, tiveram uma filha chamada Prazer.

Casamento de Eros e Psiquê
Marriage of Cupid and Psyche, 1744, Louvre
The Awakening of Psyche de Guillaume Seignac, 1904
The Awakening of Psyche de Guillaume Seignac, 1904

Eros – o amor, e Psiquê – a alma, são a expressão mais pura da união do amor e da alma. A alma só consegue conhecer a mais pura expressão do amor após se depurar com os sofrimentos que enfrenta. No início ela ama cegamente sem saber quem é de fato o marido. A luz do lampião ilumina, mas trás a luz a traição. E a reconquista da confiança perdida se dá à duras penas. Para que no fim, a verdadeira felicidade, venha com a verdade, a luz, o conhecimento do outro, o conhecimento de si mesmo e da própria força, e a aceitação do amado mesmo com seus defeitos.

Cupid and Psyche de Paul Baudry, 1892.
Cupid and Psyche de Paul Baudry, 1892.

Espero que tenham gostado e que este lindo mito os ajude, de alguma maneira, a refletir.

Beijos e até a próxima! 😉

 

 

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