Dafne e Apolo

O mito desta semana, é um mito de amor como o de Eros e Psiquê, porém o final não é lá muito feliz. Ele é mais curtinho também, mas vale a pena conhecer.

Engraçado como em praticamente todos os mitos, as grandes perdas, as grandes tragédias são sempre causadas por defeitos humanos. Mesmo os deuses são vaidosos e arrogantes, e eles mesmos acabam sofrendo as consequências disto.

Apolo e Dafne de John William Waterhouse

Apolo, como já vimos anteriormente, é o deus da luz e da música, conhecido também como deus sol e dotado de extrema beleza.

Apolo era também um exímio arqueiro que nunca errava seus alvos e andava pelo Olimpo sempre muito autoconfiante. Eros (o Cupido) naquela ocasião era um menininho alado ainda, e também era conhecido por jamais errar seus alvos, e o poder de suas flechas eram infalíveis. Apolo, de implicância com o priminho, disse a Eros que ele jamais conseguiria acertar uma de suas flechas do amor nele. Que jamais se apaixonaria.

O menino-deus alado não gostou da arrogância do primo, e tratou de pregar-lhe uma peça. Eros era um tanto traquinas quando menino, mas suas traquinagens podem custar caro às vitimas (até os dias de hoje, vamos ser sinceros). E essa traquinagem ensinaria a Apolo uma bela lição.

Eros preparou então duas flechas. Uma do amor com a pinta de ouro, e uma com a ponta de chumbo. Esta com a ponta de chumbo servia para dar o efeito contrário do amor, a mais completa repulsa. Do alto de uma rocha no Parnaso, Eros lançou as duas flechas quando Apolo estava distraído cuidando de seus afazeres.  A flecha do amor ele mirou no deus, e a flecha da repulsa acertou numa bela jovem, uma ninfa filha do rio-deus Peneu, chamada Dafne.

Apolo se apaixonou instantaneamente, e, perdidamente, por Dafne.  Ela, por sua vez, era uma dessas jovens que não querem se casar e gostava de sua liberdade.  Gostava de passear pelos bosques e admirar a natureza. Era ali que se sentia bem e feliz alheia a todas as outras coisas e ainda assim chamava a atenção de muitos por sua beleza. Muitos queriam ê-la como esposa, mas ela sempre recusou a todos. Havia implorado ao pai que lhe deixasse ser solteira para sempre, e, apesar de entristecido, Peneu jurou que ela assim ficaria.

E foi em um lindo bosque que Apolo a encontrou. No mesmo instante que o viu, Dafne foi tomada por uma enorme repulsa e fugiu horrorizada. Completamente apaixonado Apolo a perseguiu. Seus olhos brilhavam apaixonados e seu coração batia acelerado pela urgência do amor. Enquanto a perseguia, achando – a mais linda do que nunca – Apolo lhe gritava juras de amor de todo o tipo, lhe prometendo tudo de mais belo no mundo.

Mas a ninfa não quis saber e continuou fugindo. Apolo continuava atrás dela. A força do amor é tão poderosa que o belo deus não se lembrava de mais nada. só pensava na ninfa e em tê-la em seus braços.

Dafne sentiu que começava a fraquejar. Queria continuar correndo, mas estava perdendo as forças. Prestes a cair de cansaço, a ninfa recorre a seu pai Peneu, que havia jurado a ela que ela poderia se manter solteira.  Quando gritou pelo pai, pediu que lhe ajudasse, mesmo que pra isso tivesse que mudar sua forma. Peneu ouviu suas preces, e tomado pela tristeza se viu obrigado a cumprir seu juramento.

Foi nesse momento que Dafne viu seu corpo se transformar. Uma força fez com que ela parasse de correr. Foi quando percebeu que seus pés estavam se transformando em raízes, e suas pernas haviam começado a se transformar em tronco e sua pele em casca…

Apolo e Dafne de Henrietta Rae

Apolo corria atras dela quando a viu parar e correu para abraça-la. Quando Apolo a abraçou percebeu o que estava acontecendo. Os cabelos da ninfa já estavam se transformando em folhas e seus braços em galhos. Ele viu o rosto de Dafne poucos segundos antes da transformação se completar, e a expressão dela era de desespero e depois alívio. Ela havia se transformado em um loureiro.

Corroído pela dor da perda, Apolo abraçou o tronco daquela árvore e chorou amargamente. Decidiu que já que Dafne não poderia ser sua esposa, aquela planta seria a sua favorita e suas folhas seriam sempre verdes e jovens. Foi com as folhas de louro que fez sua coroa, coroa que carregava sempre nos seus cabelos dourados, e fazia parte de todos os seus triunfos. A coroa passou a ser associada ao deus, e até os dias de hoje, faz parte dos prêmios entregues nos Jogos Olímpicos. Junto com a medalha, é um símbolo de triunfo.

E Dafne foi o primeiro grande amor de Apolo. Infelizmente não acabou bem para ele. E muitas vezes o amor não acaba bem para nós meros mortais. Mas a gente continua acreditando, que, um dia, o deus do amor Eros pare com suas traquinagens e nos dignifique com um amor verdadeiro e correspondido como o que ele teve com Psiquê.

Apolo e Dafne de Gian Lorenzo Bernini

Até a próxima! 😉

 

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