Mitologia – As Fúrias

Hoje vamos falar de um trio bastante macabro na mitologia grega, as Fúrias. Na verdade eram os romanos que as chamavam de Fúrias, para os gregos o trio era chamado de Erínias. As três fofas (só que não) moravam no tártaro, também chamado de reino de Hades, e tinham o sinistro trabalho de atormentar, torturar mesmo, as almas daqueles que eram julgados por Hades e Perséfone. Eram como a personificação da vingança, e quando um homem cometia um crime, iam atrás dele para infernizá-lo até que enlouquecesse. Quando se tratava de um assassino, só sossegavam quando o criminoso morresse. Provavelmente porque aí iam poder torturá-lo um pouquinho mais quando fosse julgado por Hades quando fosse para o mundo dos mortos. Como as Moiras, cada uma tinha um nome. Elas eram:

  • Alecto – Encarrega-se de castigar os delitos morais como a ira, a cólera, a soberba, etc. É a que espalha pestes e maldições. Seguia o criminoso sem parar, ameaçando-o com fachos acesos, não o deixando dormir em paz.
  • Megaira o rancor, a inveja, a cobiça e o ciúme. Castiga principalmente os delitos contra o matrimônio, em especial a infidelidade. Faz a vítima fugir eternamente, grita ininterruptamente nos ouvidos do criminoso, lembrando-lhe dos seus crimes
  • Tisífone – vingadora dos assassinatos (patricídio, fratricídio, homicídio…), é quem açoita os culpados e os enlouquece.

Não são umas queridas? Apesar de alguns artistas como William-Adolphe Bouguereau as representarem até bonitinhas, como se pode ver abaixo, os antigos descreviam-nas como criaturas horrendas, medonhas mesmo. Eram mulheres aladas, com cobras saindo de seus cabelos, expressão de ódio no rosto, e de seus olhos saíam sangue no lugar de lágrimas.Aliás, pelas minhas pesquisas, soube que elas aparecem no jogo God of War (jogo bem bacana que tem como base a mitologia grega), e que lá elas são bem bizarras como manda o figurino.

O Remorso de Orestes, de William-Adolphe Bouguereau
O Remorso de Orestes, de William-Adolphe Bouguereau

Elas nasceram das gotas do sangue de Urano quando ele foi ferido por Cronos ao ser destronado. Outras versões dizem que seriam filhas de Urano e Gaia, ou filhas da deusa da noite, Nyx. Um importante mito conta sobre elas. Se trata do mito de Orestes. Orestes era um príncipe de Tebas que assassinou sua própria mãe, a rainha Clitemnestra.

A história de Orestes é um tantinho complicada e envolve uma galera. Vou tentar simplificar para vocês, mas já vou logo avisando que a coisa toda não é muito bonita, digamos assim. A rainha Clitemnestra era irmã gêmea não-idêntica de Helena (sim, aquela mesma que é pivô da guerra mais famosa do mundo grego, a guerra de Troia). Era irmã dos também gêmeos Castor e Pólux. Esse lado da família também é bastante confuso, então conto sobre eles depois.

Clitemenestra era casada com um cara chamado Tântalo II, o qual foi assassinado por Agamemnon que queria tomá-la como esposa. Forçada a casar-se com ele, a rainha não ficou muito contente com isso não. Nem seus irmãos que declararam guerra a Agamemnon, mas ele acabou conseguindo apaziguar as coisas. O problema era que Agamemnon era um sujeito meio do mal e conseguiu ofender a deusa Ártemis matando um animal que para ela era sagrado e ainda se gabando ser melhor caçador que a deusa da caça.

Ao sofrer com a fúria da deusa que fazia questão de atrapalhar seus planos de guerras e conquistas, o maluco resolve sacrificar sua filha com Clitemenestra, Ifigênia, com o intuito de apaziguar a deusa. Diz-se que Ártemis, piedosa e justa como era, sem que ele notasse trocou a filha por um veado que foi morto em seu lugar, salvou a menina e a levou para junto de si, que pode ter se tornado uma de suas seguidoras.

O sacrifício de Ifigênia de Tiepolo
O sacrifício de Ifigênia de Tiepolo

 

Mas o fato é que Clitemenestra se revoltou com Agamemnon por sacrificar sua própria filha, e como ela já não gostava dele, apenas o tolerava, tudo foi ficando cada vez pior. Acabou por rejeitar os outros dois filhos que teve com ele – Electra e Orestes – e, aproveitando que ele se ausentou em uma viagem de guerra (Guerra de Troia) , o traiu com Egisto, primo de Agamemnon. Quando este retornou, foi assassinado pela rainha e seu amante.

Depois do assassinato (1882), de John Collier  e Electra, segundo Frederic Leighton
Clitemenestra Depois do assassinato (1882), de John Collier e Electra no túmulo de Agamemnon, segundo Frederic Leighton

 

Para proteger o irmão que estava na mira de Egisto que a esta altura governava no lugar de Agamemon e não queria perder seu reinado, Electra o levou para longe, para que pudesse crescer em paz. Depois, Electra voltou para o castelo onde passou a ser escrava da própria mãe.  Quando Orestes cresceu voltou para vingar a morte do pai e libertar a irmã dos maus tratos que recebia, e aí a coisa que já estava feia, ficou pior.

Os irmãos vingam o assassinato do pai matando Egisto e vão para cima da rainha.  Arrependida, Clitemnestra pede desculpa por ter abandonado e rejeitado os filhos, fala que nunca tinha deixado de pensar em Orestes nenhum momento, que tratava Electra como escrava com medo que Egisto fizesse algo à filha, e ainda diz que sempre amou-os. Os filhos não acreditam e a matam também. Foi então que as fúrias começaram a persegui-lo acusando-o pelos seus crimes horrendos, sem levar em consideração os motivos e tudo que aconteceu antes.

Mas depois de muito tempo sendo torturado e perseguido, ele acabou conseguindo se libertar da perseguição implacável das fúrias. Ao refugiar-se no santuário de polo em Delfos, foi a julgamento por seus crimes em Atenas e a própria deusa intercedeu a seu favor. Por ordem de Apolo, Orestes partiu para a Táurida a fim de roubar a estátua de Ártemis e devolvê-la à cidade de Atenas. Acabou sendo preso e condenado a ser sacrificado à deusa Àrtemis, mas sua irmã Ifigênia, então sacerdotisa de Ártemis, o reconheceu e fugiu com ele levando a estátua da deusa. Salvo, herdou o reino de Agamemnon, e casou-se com Hermíone, filha de seu tio Menelau e de Helena. Diz-se que morreu aos noventa anos picado por uma serpente.

É essa confusão toda aí. Depois contarei com mais calma sobre a Guerra de Troia, Electra,  Hermíone, Helena, e todo esse pessoal bagunceiro aí citados no texto de hoje.

Só a título de curiosidade, existe uma personagem do universo DC Comics inspirada nas Fúrias. É Helena Kosmatos, a Fúria (Fury), que aparece na Terra 2 (ou Terra Paralela) da DC Comics, e tem os poderes das Fúrias. Ela é mãe de uma outra heroína também chamada Fúria, a Lyta Trevor, que originalmente seria filha da Mulher Maravilha, mas acabou tendo sua origem reescrita. Esta última não tem os mesmos poderes que a mãe.

Fúria mãe - Helena Kosmatos - Dc Comics
Fúria mãe – Helena Kosmatos – Dc Comics

 

Fúria filha - Lyta Trevor - Dc Comics
Fúria filha – Lyta Trevor – Dc Comics

 

Não são umas graças? =)

Até a próxima!

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