O Mito de Orfeu e Eurídice

Bom dia queridas e queridos fãs de mitologia. Esta semana, aqui no blog, o tema é o mito de Orfeu e Eurídice.

Essa história de amor é uma das mais lindas e emocionantes para mim. Quando a li pela primeira vez, ainda criança, fiquei tocada com a dedicação de Orfeu por sua amada, e entristecida com o destino desses dois corações. Esse mito é bastante popular e já foi tema de peças e filmes. Lembram do filme “Orfeu” com o Toni Garrido? É baseado neste mito, com as devidas adaptações à realidade das favelas cariocas.

Mas a versão que vou contar para vocês é aquela que envolve deuses, seres extraordinários e tudo que faz dos mitos histórias tão encantadores como verdadeiros contos de fada. Espero que gostem!

Orfeu e Eurídice, Louis Ducis

Orfeu era um jovem poeta e músico extremamente talentoso que encantava a todos quando tocava sua lira. A todos mesmo. Dizia-se que era capaz de encantas os animais mais selvagens, como serpentes e leões que se deitavam a seu lado para ouvi-lo tocar e cantar. Suas melodias eram doces e hipinóticas e dizia-se que tudo se devia ao fato dele ter herdado o talento de seus supostos pais, a musa Calíope e o deus Apolo, e que a lira que carregava consigo era presente do próprio pai.

Muitas moças se apaixonavam por ele, mas ele nunca deu muita importância, até que um dia bateu os olhos em Eurídice. A tímida jovem tinha feições delicadas, sedosos cabelos e olhar doce, transmitindo uma pureza e uma leveza que Orfeu sempre desejou encontrar. Se apaixonaram imediatamente um pelo outro e decidiram se unir em casamento. A festa foi belíssima, e a felicidade dos dois era contagiante. Aquele amor era do tipo raro, eterno, uma benção dos deuses. Mas infelizmente o deus dos casamentos Himeneu previu, com muita tristeza, de que muito em breve essa felicidade iria sofrer abalos.

Alheios ao que o destino lhes reservava, o casal seguiu seus dias felizes como se jamais viu. Gostavam de passear pelos bosques onde Orfeu cantava e tocava para sua amada que dançava e brincava, colhendo flores e apreciando a vida. A vida deles era simples e feliz. Não faltava nada, e sobrava amor. Um determinado dia, porém, Eurídice passeava sozinha pelos bosques. Orfeu não estava muito longe, mas trabalhando. Ela colhia suas adoradas flores quando um caçador chamado Aristeu a vê e ali sozinha e a deseja. Ele sabia quem era Eurídice e sabia da fidelidade do casal, então tenta agará-la a força. Eurídice consegue fugir deixando cair seu cesto de flores e frutos, correndo em desespero. Ela tropeça em uma cobra e cai, sendo atacada imediatamente pela cobra que a mata.

Orfeu e Euridice, Corot
Orfeu e Euridice, Corot

Orfeu imediatamente sente que tem algo errado e vai procurar a amada no bosque de costume. Ele corre procurando por ela e quando vê seu cesto caído e ela desaparecida imediatamente tem a certeza de que algo está errado. Encontra Eurídice moribunda mais adiante, envenenada, prestes a dar o último suspiro. Ele pega seu corpo sem forças nos braços e chora com desespero implorando que a amada não o deixe. Ela dá seu último olhar em despedida, e finalmente a vida deixa seu corpo. Orfeu é só sofrimento. Grita em desespero, tenta cantar para fazê-la voltar a vida, chora em dor, tudo em vão. A partir daí fica obstinado em trazê-la de volta a vida. E eis que começa a sua jornada.

A sua música sempre lhe abriu portas. E desta vez será sua música que lhe abrira as portas do Tártaro. Orfeu, angustiado, vaga durante dias e noites em busca da entrada do inferno, onde planeja ir buscar sua amada. Após perambular por florestas e encostas íngremes, finalmente encontra uma das entradas do reino de Hades, uma gruta que fica ao pé do monte Tênaro. Obstinado em sua busca ele adentra as sombras de onde só sairia se pudesse levar consigo sua esposa.

Ao chegar à beira do rio Estige, chama o barqueiro Caronte, que nega lhe transportar pois não transporta vivos. Orfeu toca suas mais lindas melodias, o barqueiro se compadece, e numa rara exceção o transporta para o outro lado. Caronte só faria isto mediante pagamento, mas no caso de Orfeu, foi a música que lhe abriu o caminho. Do outro lado do rio, diante do raivoso cão de três cabeças Cérbero, Orfeu mais uma vez usa sua infalível música acalmadora de feras para domar o monstruoso cão.

Cérbero adormece e Orfeu passa, e indo até as profundezas, o poeta fica finalmente frente a frente com o grande juiz, o senhor do reino dos mortos Hades. Ao seu lado a bela Perséfone, esposa de Hades. Orfeu lhes implorou pelo retorno de seu amor, mas os deuses afirmaram que nada podiam contra a resolução das três Moiras. Não se dando por vencido Orfeu mais uma vez se utilizou de sua música e lhes canta tudo o que viveu. Desde sua belíssima história de amor, o encontro de almas gêmeas, até a morte de sua amada que tão prematuramente lhe fora arrancada dos braços. Perséfone se compadece e Hades acaba cedendo. Afinal entende perfeitamente o amor e o desespero que é perdê-lo. Ele próprio desafiou a vontade dos deuses ao raptar Perséfone.

Orfeu diante de Plutão e Prosérpina, François Perrier
Orfeu diante de Plutão e Prosérpina, François Perrier

Hades e Perséfone consentem que Eurídice retorne a superfície com Orfeu. Eurídice é trazida à presença deles e quando vê Orfeu, seu semblante se ilumina, ela que estava ferida e abatida. Infelizmente os amantes são impedidos de se abraçarem, afinal ela é apenas um espectro. Para que o retorno de Eurídice a superfície dê certo, Orfeu precisa passar por apenas mais uma prova. Prova esta que parece muito simples, mas é mais difícil do que o poeta poderia imaginar. Eurídice deveria seguir Orfeu em seu caminho de volta, e Orfeu jamais poderia olhar para trás. Nem mesmo para se certificar que sua esposa o seguia. Ele teria que confiar na palavra dos deuses.

Como todos os deuses amavam aquele belo casal, ficaram felizes em poder ajudá-los. Hermes, o mensageiro dos deuses foi alegremente encarregado de acompanhá-los em segurança à superfície. O início da jornada foi tranquilo e feliz. Orfeu finalmente teria sua amada de volta e Eurídice o seguia com alegria no coração. Mas o caminho até a superfície era longo e como Orfeu não ouvia os passos de Eurídice atrás de si (afinal ela era apenas um espírito), seu coração começou a se angustiar e sua cabeça a se encher de dúvidas.

Faltavam poucos passos para chegarem à luz. A dúvida e o amargor crescia no peito de Orfeu. Hermes o dizia para resistir, mas a curiosidade e o medo de sua amada não o estar seguindo foi mais forte que sua própria vontade. Quando estavam alcançando a superfície, quase saindo da gruta por onde entrou, Orfeu olhou para trás. Sentiu júbilo de alegria por uma fração de segundo, e então o horror tomou conta de si. Ali estava Eurídice atrás dele, quase se tornando humana novamente, linda… Os deuses haviam cumprido sua promessa. Mas seu imperdoável erro fez com que Eurídice fosse perdida novamente. No instante em que se olharam, com horror no olhar Eurídice sentir que estava sendo puxada para trás. Gritou em desespero e desapareceu na escuridão.

Orfeu e Eurídice, Russell
Hermes guia Orfeu, que perde Eurídice pela segunda vez.

Hermes, colocou a mão no ombro de Orfeu que já queria se jogar novamente na escuridão atrás de Eurídice e disse… “Ah, Orfeu… eu sinto muito…”

Entendendo o que havia feito, Orfeu não conseguiu perdoar a si mesmo. Havia perdido pela segunda vez o amor de sua vida e os deuses não o ajudariam novamente. Passou a vagar, sujo e maltrapilho, desesperado e amargurado. Todos o reconheciam, o tratavam o melhor que podiam, lhe davam comida e abrigo. Era uma pena que um jovem cantor tão adorado por todos sofresse daquela maneira.  Se tornou solitário e sempre fiel à memória da esposa. Era ela quem amava e morreria por ela. E de fato foi isso que aconteceu. Um dia, algumas seguidoras de Dionísio, as Bacantes (também chamadas de Mênades), decidiram seduzi-lo. Ele as recusou se mantendo fiel a Eurídice. As bacantes ficaram furiosas, e descontroladas como eram, não pensaram muito e o assassinaram, fazendo seu corpo em pedaços.

A Morte de Orfeu, por Emile Levy
A Morte de Orfeu, por Emile Levy

Os deuses que adoravam Orfeu, punem as assassinas transformando-as em carvalho. As musas, reúnem os pedaços do corpo de Orfeu lhe dando uma digna sepultura no monte olimpo, ao lado de uma sepultura que decidem fazer para Eurídice também.

Os eternos apaixonados agora estão reunidos no mundo dos mortos. Seus espíritos vão para os belíssimos campos Elísios, onde podem desfrutar da felicidades de sua união, que não puderam concretizar quando faziam parte do mundo dos vivos.

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Linda história, não? Apesar de tudo, o final foi feliz. E a dedicação de Orfeu por Eurídice e algo muito raro de se encontrar e até difícil de se acreditar.

Espero que tenham gostado. Até a próxima! 😉

 

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