Sobre minha experiência pessoal e a necessidade de lutarmos sim por melhorias.

Eu tenho adiado escrever aqui sobre a experiência que vivi em abril deste ano. Como já mencionei antes, passei uns dias internada por causa de uma celulite facial que, na pior das hipóteses, poderia ter me tirado a vida. Já falei sobre ela aqui neste link, caso vocês queiram saber um pouco mais sobre a doença, mas este post é mais especificamente sobre as condições do hospital em que fiquei internada. Acho que o momento no país é de protesto e reivindicações e quero tentar contribuir um pouco com isso, mesmo que apenas escrevendo sobre uma de nossas maiores necessidades, a saúde.

Começo dizendo que a equipe médica era excelente. A junta médica que cuidou de mim com todo o esmero do mundo, era quase uma equipe do estilo do Dr. House. Extremamente profissionais e preocupados. Assim como grande parte da equipe de enfermagem. Vocês devem estar pensando: “Olha lá, a riquinha falando do hospital particular.” Ledo engano, meus caros. O hospital que fiquei era público. Eu começo ressaltando o lado bom, que é justamente da equipe de profissionais que cuidaram de mim. Agora vem todo o lado ruim da coisa.

Os 8 dias em que fiquei internada foram muito difíceis. Muito mesmo. Eu tive sorte de ter sido internada às pressas e de não ter ficado sabe Deus lá quanto tempo esperando em uma fila. Eu fui colocada numa das melhores enfermarias do hospital, já que a Dermato não tem uma enfermaria, me colocaram na da Oftalmo que tem a fama de ser a mais tranquila e limpa… e ainda assim… A infra estrutura era algo triste de se ver. Era visível como todos os profissionais la se esforçavam o máximo pra que tudo fosse o melhor possível, mas falta de tudo. Pra começar, não tem álcool gel em nenhum dos dispensers dos corredores para que visitantes e pacientes pudessem limpar as mãos.

Os lençóis eram trocados diariamente, assim como nossos pijamas, mas era tudo remendado ou esburacado. Tudo limpíssimo, mas ainda assim…

O drama maior era o banheiro. Havia apenas um banheiro unissex que não era de uso exclusivo dos pacientes. Qualquer um podia entrar. E nem todos, infelizmente, tem as noções básicas de higiene. Tomar banho era um problema, um drama a parte, pois qualquer pessoa poderia entrar a qualquer momento. Por sorte, consegui que minha mãe me acompanhasse quase que o tempo todo que estive internada. Senão, honestamente não sei como teria me virado sozinha. Chuveiro, torneiras, vasos sanitários, tudo quebrado, vazando, e mesmo que o banheiro fosse todo lavado todos os dias pela manhã, sempre acabava ficando nojento ao longo do dia. Mas como exigir higiene de uma população que não tem sequer acesso à educação? Sem educação, não se tem higiene. Sem higiene, não há saúde que resista. E o cheiro da tubulação antiga era insuportável. Infiltrações, mofo, vazamentos, buracos no teto. Era essas as condições. E haviam baratas. Um verdadeiro pesadelo.

Apesar de todos esses problemas, fui bem cuidada. Apesar da péssima hotelaria, os médicos foram impecáveis. Passavam para me ver todos os dias pela manhã e às vezes no final da tarde. Os enfermeiros mediam minha pressão e temperatura inúmeras vezes ao dia, e nutricionistas passavam todos os dias para saber se eu estava conseguindo comer direito. Foi engraçado perceber como mudaram a minha alimentação durante o tempo que estive lá. Antes do exame de sangue a comida era aquela bem de hospital mesmo: legumes cozidos pouco sal etc, coisas com as quais eu estou acostumada pois gosto de seguir uma dieta saudável.  Depois do resultado dos exames (que graças a Deus estavam ótimos =)) eles passaram a me dar de tudo pra comer, até mesmo frituras.

Enfim, apesar dos problemas gritantes na infra estrutura, os profissionais são excelentes e hoje me encontro mais saudável do que nunca. O que está muito doente é o nosso sistema de educação e saúde. Pois a maioria das pessoas que estavam naquela enfermaria, estavam ali por alguma cirurgia feita nos olhos. E são cirurgias rápidas, e que as pessoas recebiam alta no dia seguinte. Mas depois voltavam pois, na sua falta de noções básicas de higiene, arrumavam algum tipo de infecção e complicação pós-operatória nos olhos. Por não lavarem as mãos depois de usarem o banheiro e depois levarem as mãos aos olhos. Eu mesma vi. Tentava ajudar, dar toques, mas é muito complicado.

Temos que protestar sim. Pagamos impostos absurdamente caros para que o povo tenha direito a educação e saúde. E não temos nada. Tudo está absurdamente sucateado. Somos tratados como lixo. Me entristeço toda vez que lembro o que passei. Mas me entristeço mais ainda quando lembro que tem coisa muito pior por aí. Que tem muita gente passando por coisas muito mais graves que eu passei e que não tiveram a mesma sorte que eu. Sim, o meu caso foi grave, mas correu tudo bem pois fui socorrida rápido. E de pensar que tem tanta gente por aí nas piores condições, condições desumanas, morrendo à míngua nas filas dos hospitais, isso me faz chorar.

Obrigada a vocês que tem protestado, lutado, levado tiros de bala de borracha sem merecer, apenas por lutar por um país melhor. Obrigada de coração. A gente precisa de verdade de muitas mudanças e melhorias. Meu mais profundo e sincero obrigada a vocês. Mas que fique claro que este meu agradecimento não se estende àqueles que se aproveitam das manifestações para propagarem a vandalização. Sou contra e sempre serei contra qualquer tipo de violência.

 

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